Conheci-a a 5 dias, ou melhor beijado-a, a antiga professora de meu filho. Chovia dentro da antiga casa de meus pais e a cada beijo, carícia, sussurro conhecia aquela meiga e quente mulher. Lia-me poesia a cama enquanto declamava seu corpo em poesia. Sua comida, saborosa, só vim a experimentar depois. Naqueles dias me perdia nas voltas do colar que seu pescoço nu cobria e nada comia. Sei que não é sábio enumerar qualidades do a ser invejado, mas não tenho forças para prender à boca, palavras sobre ela. Aprendi o gosto da palavra escrita, semântica, poética para transportá-lo, caso isso seja realmente possível, aos cheiros, sabores e sons presentes aquela tão solitária casa, que não mais abandonada revivia aqueles dias as emoções antigas dos ausentes. A umidade não mais contida escorria pelas frestas de seus tijolos, sua tinta enrugada esticava-se qual tal tamborim e soava ao ritmo das vibrações do quarto. Toda a casa, da cozinha aos cômodos que abrigaram avós e crianças, fervia enquanto acompanhava o enlace dos amantes e fatigada, descansava ao longo de intermináveis conversas madrugada adentro.
Triste porém, aquela tarde, não compreendia como tal roupa separada seria.
Carusto Camargo 2005
