Você viu? POMBINHOS NO SUL. A modelo Giselle Bündchen trouxe seu marido, o jogador de futebol americano Tom Brady, ao Brasil para conhecer sua cidade natal, Horizontina (RS), onde os dois passearam; o casamento foi em fevereiro nos EUA. Folha de São Paulo 16 de março de 2009.
Protesto contra demissões no RS reúne 300. Cerca de 300 pessoas se reuniram ontem para protestar contra as demissões em massa na fábrica da John Deere no município gaúcho de Horizontina. Folha de São Paulo, 29 de janeiro de 2009.
Sonho de virar Gisele atrai 230 meninas à feira no Sul. A empregada doméstica Nair Koposesku crê que sua filha Alessandra, 5, também já esteja decidida. "Ela quer ser modelo. Escolheu essa carreira", diz Nair, que penou para pagar os R$ 980. "Meu marido é operário e fez serão", conta. Folha de São Paulo, 27 de abril de 2007.
Há meses Antônio perfaz três turnos interruptos à beira da caldeira da metalúrgica. Acredita-se tratar de dívida de jogo jurada de morte, seja pelo silêncio mortuário do operário e pelo olhar fixo a contar as horas extras no cartão de ponto. Veem-se os números e as operações em sua mente, calculando e calculando o preço de sua sobrevida, de seu segredo e esperança em atingir a cifra de 980 reais. Descontados os gastos de primeira necessidade, refeitório, passagens de ônibus, ingressos para ver o Veranópolis Futebol Clube e a sagrada pinga matinal, a quantia representa o triplo de seus vencimentos líquidos mensais.
A agonia de Antônio se prolonga além dos limites de seu corpo e sanidade de sua mente. Insiste no ritmo frenético e irresponsável de labuta, apesar da preocupação dos colegas que organizaram uma rifa para cobrir o preço de sua vida. Não se trata do orgulho ou da incapacidade em aceitar a generosidade de outros. Homem de poucas palavras e honra inabalável, por mais insano que seu estado possa revelar, jamais aceitaria dinheiro sem dar graças da finalidade e prestação futura das contas. E Antônio encontra-se impossibilitado de atender a estes dois princípios de honradez devido a um segredo compartilhado com a esposa e filha, com jura de morte de sua mãe e cegueira da menina.
Não se passa uma noite sem que Antônio se arrependa de ter fixado o olhar em recorte de jornal colado na banca da fábrica, ainda em meados do natal, que já passaria a pão, mortadela e leite de soja com aroma de maracujá, lanche fornecido pela fabrica, durante as horas extras na tentativa de abrandar os efeitos dos gases da fundição dos pivôs de direção exportados para as caminhonetas da GM.
Curiosamente, desde o primeiro turno extra da interrupta série trimestral, Antonio saboreia as refeições em sua bancada de trabalho admirando um pôster de uma caminhoneta dirigida por uma modelo brasileira nascida como ele em Horizontina, no interior do Rio Grande do Sul. No canto inferior esquerdo do pôster, uma vista em corte mostra detalhes do pivô da caminhoneta produzido na fábrica de Antônio.
Não, o responsável pela sua difícil missão não fora o olhar, mas o compartilhar a informação do recorte de jornal com sua filha de 5 anos, aspirante a modelo mirim, que eufórica adentrou a modesta residência pulando e clamando a mãe o conteúdo da notícia, quase incompreensível pelos rasgos que furtaram aos outros a informação que a mãe agora decifra e compreende mais com o rubor da face e com o sorriso do rosto do que com a imagem apagada das letras aos olhos.
Sim, “ela”, “a modelo”, a mesma da caminhoneta da bancada de trabalho, voltaria a sua cidade natal com marido famoso dos “states”, jogador de um tipo de futebol que Antônio não compreendia, na companhia de sua amiga e agente que a revelou para o mundo da moda e da mais valia. Viagem familiar para apresentar o churrasco de chão e a chula para o gringo, mas não existe aspirante mirim a modelo em um raio de
Antônio somente conseguira acumular as horas extras necessárias na semana anterior à chegada da modelo. Hoje, durante o jantar em família, com o “book” em mãos, planeja o dia seguinte, quando pretende entregá-lo a agente da modelo. Sairá antes do final do seu turno de trabalho e passará no caixa da firma para pegar um adiantamento para pagar um táxi em direção à cidade, pois não existem linhas urbanas próximas à fábrica.
O dia de trabalho transcorreu normalmente, inclusive com o usual temor antes do almoço, comum às sextas feiras, quando é comunicada a lista de corte de pessoal. Pegos de surpresa logo após o almoço, os funcionários demitidos foram conduzidos pelo segurança para fora da empresa após uma breve passagem pelo vestiário para pegar seus pertences e trocar de roupa e somente após cerca de 10 dias farão contato com os representantes da fábrica quando do acerto da rescisão no sindicato da categoria.
Antônio com cabeças e olhos somente para o “book”, não se aperceberá da tensão dos colegas, nem da possibilidade de seu nome fazer-se presente à lista. Somente o grito de seus colegas arrematou-o a dura realidade em que se encontrava. Um após o outro, metade de seus companheiros de trabalho fora cortado e aos restantes de seu setor, caberia a dura batalha de conseguir uma recolocação em outro setor da fábrica, dentro do período de um mês. Antônio, cujo nome pertencia ao segundo grupo, mantinha-se alheio a gravidade da situação e dirigia-se ao caixa da empresa, de roupa limpa, perfumado e com o book sob os braços. A corrida até o hotel da modelo deveria ficar por volta dos 40 reais, mas cauteloso, solicitaria um adiantamento de 70, já que em seus bolsos, somente continham os restos dos papéis de bala que sua filha lhe dera, como forma de carinho, afeição e reconhecimento pelo esforço do pai em conquistar o sonho de sua pequena.
Após dobrar o pavilhão de tratamento de resíduos químicos, Antônio deveria avistar o guichê do caixa e uma pequena fila que impreterivelmente se forma às tardes das sextas feiras, aguardaria sua vez por cerca de 15 minutos, a tempo de chegar ao ponto de táxi às 15h. Com o pouco transito deste horário, levaria 20 minutos para chegar ao hotel perto das 15h30, horário que um compadre seu que trabalha no hotel lhe confidenciara que a agente da modelo olharia alguns poucos books em atenção aos funcionários do hotel.
Não, não avistou uma fila, mas um pequeno tumulto à frente do guichê. Por medida de segurança, devido ao número excessivo de cortes, àquela tarde não seriam dados qualquer tipo de adiantamentos aos funcionários.
Chovia forte e com o book sob o braço, embrulhado em um saco de lixo preto, Antonio caminhava pela longa estrada em direção a cidade. Não corria, não calculava à distância ao hotel, nem mesmo nos sonhos de sua família conseguiria chegar a tempo. Havia transcorrido 50 minutos de caminhada quando avistou uma caminhoneta no acostamento e as poucas possibilidades de conseguir uma carona, foram por “água baixo” quando constatou que o pneu dianteiro esquerdo estava furado. Vendo que o motorista não conseguia trocar o pneu por não conhecer o sistema de fixação da roda do veículo importado, Antônio deu-se por derrotado, pediu para o motorista guardar o book dentro do carro e com o manual do proprietário em mãos, acoplou o macaco à carroceria, afrouxou as porcas, desconectou a trava de segurança e retirou a roda da caminhoneta. Neste momento, notou uma pequena marca no pivô da barra de direção e ao inspecioná-la procurando por uma fadiga prematura do material ou mesmo um impacto indevido, constatou curiosamente que a marca se assemelhava a produzida pela máquina que operava, fato este, comprovado pela leitura das duas letras finais do número de série do pivô que identificavam sua bancada de trabalho. Sem se aperceber da real importância desta coincidência, cabisbaixo e vagarosamente Antônio se encaminhou para a parte detrás do veículo, encostou o pneu furado no párachoque, levantou a tampa traseira, pegou o pneu sobressalente e protegido da chuva pela tampa, torceu o casaco encharcado, enxugou a testa, o cabelo e suspirou longamente e ao manter a cabeça reta neste ato de desabafo, avistou a modelo e agente no banco detrás da caminhoneta admirando o book de sua filha.
