Sentado à mesa vazia da sala, perco o ar, meu
coração se amiúda, não me importando mais com os
desígnios do português, escorro em palavras sentimentos
que temo pôr corpo afora. Não me importam os
significados, nem me uso delas para conterem minhas
angústias, são somente invólucros da tristeza represada
no nó que me corta a garganta e sufoca minhas
entranhas. Quero chorar tinta, me drogar na escrita
que não mais da pena se utiliza, mas do ritmo mudo do
teclado contemporâneo que não mais nos lembram os
enlaces de pernas dos amantes afoitos. Não, não choro
de amor perdido, nem da morte de ente querido, choro
de saudade, de amor transbordado, distante.
Como o tempo pode ser tão cruel e infeliz ao
criar o relógio, ao aprisionar os momentos queridos que
deveriam sorrir em eternidade e não serem contidos
em nossos interiores? Quero romper as fronteiras deste
corpo mundano, gordo e fedido que me prendem a esta
terra injusta com os caprichos de um pai que quer estar
perto dos filhos.
Enterprise... teletransportar
Carusto Camargo 2008
