Sinto até hoje a aspereza do tecido do sofá
em minha face quando ouvia os gritos abafados pelas
almofadas dos que, aflitos, me procuravam. Escondido,
chorava miúdo, sem compreender os desígnios que meu
primeiro contato com a morte teria em minha vida.
Não a conhecia, nem mesmo hoje consigo mensurar a
distância que isto significava àquela criança, a avó da
esposa de meu tio. Mas ela sabia, sentia em seu coração
inocente a morte. Ela era tão irreal e abstrata, este luto
pelo desconhecido, sussurrado no corredor pela boca
cautelosa da mãe que, por mais que esfregasse, não
saía no banho. Como um micróbio, bicho pequeno
e esquisito que se esconde por debaixo da pele, ficou
a espreitar minha vida. Mas não foi do medo que se
alimentou por todos estes anos, nem mesmo da tristeza.
Foi, sim, meu fiel conselheiro, questionando minhas
ações em vida com sua presença iminente, me deu força
e compaixão para confortar familiares e amparar vários
que me foram.
| RETORNE AO BLOG | Carusto Camargo é artista plástico e professor do Núcleo de Cerâmica do Instituto de Artes da UFRGS, Porto Alegre - RS.Em sua atividade acadêmica busca construir um saber cerâmico compartilhado com demais Instituições e ateliês de pesquisa e ensino do Brasil e fomentar a produção de obras de Arte Pública em Cerâmica |
