Entre a umidade e o mofo dos carpetes do
sobrado colonial, ouviam-se os chiados dos pulmões
que levariam minha mãe à morte. Tinha a idade dos
mistérios, dos espaços e cômodos não permitidos, dos
objetos e histórias não reveladas. A casa do número 185,
havia sido comprada por meu pai durante o golpe de
64 e, até hoje, véspera da decisão da Copa de 1970,
mantinha-se em uma arrastada e interminável reforma.
O antigo proprietário “sumira” na madrugada deixando
a suposta viúva à mercê dos interrogatórios e dificuldades
financeiras. Estudávamos em escola pública, todas as
manhãs hasteávamos a bandeira e cantávamos o hino
nacional em pátio frio. O governo “comprava” o nosso
silêncio com o medo e, em pleno “milagre nacional”,
subjugava e esquecia toda a minha geração.
Naquela tarde, todos, primos e irmãos
gritariam “para frente Brasil” em frente da TV, alheios
aos porões do regime militar. Mas enquanto o sobrado
mergulhava na conquista do tri-campeonato no México,
eu espreitava a bolsa de minha mãe na penteadeira.
Queria conhecer seu interior, seus mistérios e desejos.
Passara as tardes de minha infância vazia observando a
penteadeira, esperando a bolsa ser colocada sobre seus
braços torneados. Imaginava meu corpo se projetando
no interior do quarto e, em posse dela, subia no limoeiro
do quintal e descobria seus segredos.
Ao quarto gol da seleção canarinho, a euforia
fora tanta que me tomou força aos pés e como o vento
peguei-a ao braço... mas pálida, deitada na cama, nada
mais me revelaria.
| RETORNE AO BLOG | Carusto Camargo é artista plástico e professor do Núcleo de Cerâmica do Instituto de Artes da UFRGS, Porto Alegre - RS.Em sua atividade acadêmica busca construir um saber cerâmico compartilhado com demais Instituições e ateliês de pesquisa e ensino do Brasil e fomentar a produção de obras de Arte Pública em Cerâmica |
