Carusto Camargo é artista plástico e professor do Núcleo de Cerâmica do Instituto de Artes da UFRGS,Porto Alegre - RS. Em sua atividade acadêmica busca construir um saber cerâmico compartilhado com demais Instituições e ateliês de pesquisa e ensino do Brasil e fomentar a produção de obras de Arte Pública em Cerâmica
Fim de viagem, roupas sujas em uma mala, amontoadas misturando cheiros, sabores e desejos, limpas em outra. Não entenderás a importância desta divisão sem que te retorne ao quarto mês passado, enquanto separávamo-as ao término da Páscoa.
Conheci-a a 5 dias, ou melhor beijado-a, a antiga professora de meu filho. Chovia dentro da antiga casa de meus pais e a cada beijo, carícia, sussurro conhecia aquela meiga e quente mulher. Lia-me poesia a cama enquanto declamava seu corpo em poesia. Sua comida, saborosa, só vim a experimentar depois. Naqueles dias me perdia nas voltas do colar que seu pescoço nu cobria e nada comia. Sei que não é sábio enumerar qualidades do a ser invejado, mas não tenho forças para prender à boca, palavras sobre ela. Aprendi o gosto da palavra escrita, semântica, poética para transportá-lo, caso isso seja realmente possível, aos cheiros, sabores e sons presentes aquela tão solitária casa, que não mais abandonada revivia aqueles dias as emoções antigas dos ausentes. A umidade não mais contida escorria pelas frestas de seus tijolos, sua tinta enrugada esticava-se qual tal tamborim e soava ao ritmo das vibrações do quarto. Toda a casa, da cozinha aos cômodos que abrigaram avós e crianças, fervia enquanto acompanhava o enlace dos amantes e fatigada, descansava ao longo de intermináveis conversas madrugada adentro.
Triste porém, aquela tarde, não compreendia como tal roupa separada seria.
Você viu? POMBINHOS NO SUL. A modelo Giselle Bündchen trouxe seu marido, o jogador de futebol americano Tom Brady, ao Brasil para conhecer sua cidade natal, Horizontina (RS), onde os dois passearam; o casamento foi em fevereiro nos EUA. Folha de São Paulo 16 de março de 2009.
Protesto contra demissões no RS reúne 300. Cerca de 300 pessoas se reuniram ontem para protestar contra as demissões em massa na fábrica da John Deere no município gaúcho de Horizontina. Folha de São Paulo, 29 de janeiro de 2009.
Sonho de virar Gisele atrai 230 meninas à feira no Sul. A empregada doméstica Nair Koposesku crê que sua filha Alessandra, 5, também já esteja decidida. "Ela quer ser modelo. Escolheu essa carreira", diz Nair, que penou para pagar os R$ 980. "Meu marido é operário e fez serão", conta. Folha de São Paulo, 27 de abril de 2007.
Há meses Antônio perfaz três turnos interruptos à beira da caldeira da metalúrgica. Acredita-se tratar de dívida de jogo jurada de morte, seja pelo silêncio mortuário do operário e pelo olhar fixo a contar as horas extras no cartão de ponto. Veem-se os números e as operações em sua mente, calculando e calculando o preço de sua sobrevida, de seu segredo e esperança em atingir a cifra de 980 reais. Descontados os gastos de primeira necessidade, refeitório, passagens de ônibus, ingressos para ver o Veranópolis Futebol Clube e a sagrada pinga matinal, a quantia representa o triplo de seus vencimentos líquidos mensais.
A agonia de Antônio se prolonga além dos limites de seu corpo e sanidade de sua mente. Insiste no ritmo frenético e irresponsável de labuta, apesar da preocupação dos colegas que organizaram uma rifa para cobrir o preço de sua vida. Não se trata do orgulho ou da incapacidade em aceitar a generosidade de outros. Homem de poucas palavras e honra inabalável, por mais insano que seu estado possa revelar, jamais aceitaria dinheiro sem dar graças da finalidade e prestação futura das contas. E Antônio encontra-se impossibilitado de atender a estes dois princípios de honradez devido a um segredo compartilhado com a esposa e filha, com jura de morte de sua mãe e cegueira da menina.
Não se passa uma noite sem que Antônio se arrependa de ter fixado o olhar em recorte de jornal colado na banca da fábrica, ainda em meados do natal, que já passaria a pão, mortadela e leite de soja com aroma de maracujá, lanche fornecido pela fabrica, durante as horas extras na tentativa de abrandar os efeitos dos gases da fundição dos pivôs de direção exportados para as caminhonetas da GM.
Curiosamente, desde o primeiro turno extra da interrupta série trimestral, Antonio saboreia as refeições em sua bancada de trabalho admirando um pôster de uma caminhoneta dirigida por uma modelo brasileira nascida como ele em Horizontina, no interior do Rio Grande do Sul.No canto inferior esquerdo do pôster, uma vista em corte mostra detalhes do pivô da caminhoneta produzido na fábrica de Antônio.
Não, o responsável pela sua difícil missão não fora o olhar, mas o compartilhar a informação do recorte de jornal com sua filha de 5 anos, aspirante a modelo mirim, que eufórica adentrou a modesta residência pulando e clamando a mãe o conteúdo da notícia, quase incompreensível pelos rasgos que furtaram aos outros a informação que a mãe agora decifra e compreende mais com o rubor da face e com o sorriso do rosto do que com a imagem apagada das letras aos olhos.
Sim, “ela”, “a modelo”, a mesma da caminhoneta da bancada de trabalho, voltaria a sua cidade natal com marido famoso dos “states”, jogador de um tipo de futebol que Antônio não compreendia, na companhia de sua amiga e agente que a revelou para o mundo da moda e da mais valia. Viagem familiar para apresentar o churrasco de chão e a chula para o gringo, mas não existe aspirante mirim a modelo em um raio de 100 km de Horizontina que não deseje atirar seu “book”, às vistas da agente.
Antônio somente conseguira acumular as horas extras necessárias na semana anterior à chegada da modelo. Hoje, durante o jantar em família, com o “book” em mãos, planeja o dia seguinte, quando pretende entregá-lo a agente da modelo. Sairá antes do final do seu turno de trabalho e passará no caixa da firma para pegar um adiantamento para pagar um táxi em direção à cidade, pois não existem linhas urbanas próximas à fábrica.
O dia de trabalho transcorreu normalmente, inclusive com o usual temor antes do almoço, comum às sextas feiras, quando é comunicada a lista de corte de pessoal. Pegos de surpresa logo após o almoço, os funcionários demitidos foram conduzidos pelo segurança para fora da empresa após uma breve passagem pelo vestiário para pegar seus pertences e trocar de roupa e somente após cerca de 10 dias farão contato com os representantes da fábrica quando do acerto da rescisão no sindicato da categoria.
Antônio com cabeças e olhos somente para o “book”, não se aperceberá da tensão dos colegas, nem da possibilidade de seu nome fazer-se presente à lista. Somente o grito de seus colegas arrematou-o a dura realidade em que se encontrava. Um após o outro, metade de seus companheiros de trabalho fora cortado e aos restantes de seu setor, caberia a dura batalha de conseguir uma recolocação em outro setor da fábrica, dentro do período de um mês. Antônio, cujo nome pertencia ao segundo grupo, mantinha-se alheio a gravidade da situação e dirigia-se ao caixa da empresa, de roupa limpa, perfumado e com o book sob os braços. A corrida até o hotel da modelo deveria ficar por volta dos 40 reais, mas cauteloso, solicitaria um adiantamento de 70, já que em seus bolsos, somente continham os restos dos papéis de bala que sua filha lhe dera, como forma de carinho, afeição e reconhecimento pelo esforço do pai em conquistar o sonho de sua pequena.
Após dobrar o pavilhão de tratamento de resíduos químicos, Antônio deveria avistar o guichê do caixa e uma pequena fila que impreterivelmente se forma às tardes das sextas feiras, aguardaria sua vez por cerca de 15 minutos, a tempo de chegar ao ponto de táxi às 15h. Com o pouco transito deste horário, levaria 20 minutos para chegar ao hotel perto das 15h30, horário que um compadre seu que trabalha no hotel lhe confidenciara que a agente da modelo olharia alguns poucos books em atenção aos funcionários do hotel.
Não, não avistou uma fila, mas um pequeno tumulto à frente do guichê. Por medida de segurança, devido ao número excessivo de cortes, àquela tarde não seriam dados qualquer tipo de adiantamentos aos funcionários.
Chovia forte e com o book sob o braço, embrulhado em um saco de lixo preto, Antonio caminhava pela longa estrada em direção a cidade. Não corria, não calculava à distância ao hotel, nem mesmo nos sonhos de sua família conseguiria chegar a tempo. Havia transcorrido 50 minutos de caminhada quando avistou uma caminhoneta no acostamento e as poucas possibilidades de conseguir uma carona, foram por “água baixo” quando constatou que o pneu dianteiro esquerdo estava furado. Vendo que o motorista não conseguia trocar o pneu por não conhecer o sistema de fixação da roda do veículo importado, Antônio deu-se por derrotado, pediu para o motorista guardar o book dentro do carro e com o manual do proprietário em mãos, acoplou o macaco à carroceria, afrouxou as porcas, desconectou a trava de segurança e retirou a roda da caminhoneta. Neste momento, notou uma pequena marca no pivô da barra de direção e ao inspecioná-la procurando por uma fadiga prematura do material ou mesmo um impacto indevido, constatou curiosamente que a marca se assemelhava a produzida pela máquina que operava, fato este, comprovado pela leitura das duas letras finais do número de série do pivô que identificavam sua bancada de trabalho. Sem se aperceber da real importância desta coincidência, cabisbaixo e vagarosamente Antônio se encaminhou para a parte detrás do veículo, encostou o pneu furado no párachoque, levantou a tampa traseira, pegou o pneu sobressalente e protegido da chuva pela tampa, torceu o casaco encharcado, enxugou a testa, o cabelo e suspirou longamente e ao manter a cabeça reta neste ato de desabafo, avistou a modelo e agente no banco detrás da caminhoneta admirando o book de sua filha.
Sentado à mesa vazia da sala, perco o ar, meu coração se amiúda, não me importando mais com os desígnios do português, escorro em palavras sentimentos que temo pôr corpo afora. Não me importam os significados, nem me uso delas para conterem minhas angústias, são somente invólucros da tristeza represada no nó que me corta a garganta e sufoca minhas entranhas. Quero chorar tinta, me drogar na escrita que não mais da pena se utiliza, mas do ritmo mudo do teclado contemporâneo que não mais nos lembram os enlaces de pernas dos amantes afoitos. Não, não choro de amor perdido, nem da morte de ente querido, choro de saudade, de amor transbordado, distante. Como o tempo pode ser tão cruel e infeliz ao criar o relógio, ao aprisionar os momentos queridos que deveriam sorrir em eternidade e não serem contidos em nossos interiores? Quero romper as fronteiras deste corpo mundano, gordo e fedido que me prendem a esta terra injusta com os caprichos de um pai que quer estar perto dos filhos.
Escrevi belas palavras e, por brincadeiras do destino, para não falar em excesso de organização caótica, as perdi. Escritas em um guardanapo de mesa, na manhã de nossa mudança, se perderam após serem reescritas a limpo. Os guardanapos poéticos nunca se perdem, ficam amassados, por meses, até mesmo anos, nas frestas das carteiras, no fundo das gavetas, mas estão lá, descolorindo e sorrindo qual criança em pique e esconde. São fiéis e sempre quando começamos a arrancar os cabelos, rezamos para São Longuinho ou sabem que precisamos relê-los, saem do esconderijo com o rosto maroto, triunfantes de suas façanhas. As A4 são impessoais e metidas e, como já poderíamos esperar, nem brincar brincam e, impiedosas, somem se não a tratamos com a organização e impessoalidade típicas de seu nome. Meu erro, você já deve ter notado, foi ter dado atenção, ou melhor, afeição despretensiosa a uma folha de papel que aceita ser chamada de A4, erro que não tem perdão, nem para a mais pura fibra de papel que levou minhas palavras e sentimentos de uma manhã de segunda feira quando mudava para Porto Alegre.
tecidos que outros corpos cobriram espreitam os espaços externos à trama que os confina do silêncio das gavetas cheirosas recordam movimentos pela sala peles de outros corpos entrelaçados tramados
deitada olhava através da janela horizonte claro chamava a novos caminhos mas não saía... sentia-se presa aquele corpo novo a cada dia era a primeira noite com o símbolo à esquerda a primeira manhã com ele à frente da mesa a primeira tarde consigo à direita da cama a olhar a janela esperando escrever sua nova história
Carusto Camargo 2008
brincos Calina (c. 800 A.C.) Ouro 9,3 x 3,9cm/9,2 x 4,5cm Museo de ouro del Branco de la república, Colômbia (CCBB, 2005, p.127)
Sinto até hoje a aspereza do tecido do sofá em minha face quando ouvia os gritos abafados pelas almofadas dos que, aflitos, me procuravam. Escondido, chorava miúdo, sem compreender os desígnios que meu primeiro contato com a morte teria em minha vida. Não a conhecia, nem mesmo hoje consigo mensurar a distância que isto significava àquela criança, a avó da esposa de meu tio. Mas ela sabia, sentia em seu coração inocente a morte. Ela era tão irreal e abstrata, este luto pelo desconhecido, sussurrado no corredor pela boca cautelosa da mãe que, por mais que esfregasse, não saía no banho. Como um micróbio, bicho pequeno e esquisito que se esconde por debaixo da pele, ficou a espreitar minha vida. Mas não foi do medo que se alimentou por todos estes anos, nem mesmo da tristeza. Foi, sim, meu fiel conselheiro, questionando minhas ações em vida com sua presença iminente, me deu força e compaixão para confortar familiares e amparar vários que me foram.
Entre a umidade e o mofo dos carpetes do sobrado colonial, ouviam-se os chiados dos pulmões que levariam minha mãe à morte. Tinha a idade dos mistérios, dos espaços e cômodos não permitidos, dos objetos e histórias não reveladas. A casa do número 185, havia sido comprada por meu pai durante o golpe de 64 e, até hoje, véspera da decisão da Copa de 1970, mantinha-se em uma arrastada e interminável reforma. O antigo proprietário “sumira” na madrugada deixando a suposta viúva à mercê dos interrogatórios e dificuldades financeiras. Estudávamos em escola pública, todas as manhãs hasteávamos a bandeira e cantávamos o hino nacional em pátio frio. O governo “comprava” o nosso silêncio com o medo e, em pleno “milagre nacional”, subjugava e esquecia toda a minha geração. Naquela tarde, todos, primos e irmãos gritariam “para frente Brasil” em frente da TV, alheios aos porões do regime militar. Mas enquanto o sobrado mergulhava na conquista do tri-campeonato no México, eu espreitava a bolsa de minha mãe na penteadeira. Queria conhecer seu interior, seus mistérios e desejos. Passara as tardes de minha infância vazia observando a penteadeira, esperando a bolsa ser colocada sobre seus braços torneados. Imaginava meu corpo se projetando no interior do quarto e, em posse dela, subia no limoeiro do quintal e descobria seus segredos. Ao quarto gol da seleção canarinho, a euforia fora tanta que me tomou força aos pés e como o vento peguei-a ao braço... mas pálida, deitada na cama, nada mais me revelaria.
Traça, sim, definitivamente uma traça, daquelas que comem poeira e sobem pelas paredes e bibliotecas de nossas residências, que se acomodou dentro dos objetos, em longa viagem, atravessando o Brasil do Pará, terra da Cultura Marajoara, até o Rio Grande do Sul, onde me encontro e leciono. Pouco me conforta saber que tratava-se de traça importada, vinda de vôo internacional com escala em Belém. Exclamou com orgulho que havia subido pela face do escravo de Michelangelo, comido da poeira do ateliê de Brancusi, se embriagado na terebintina dos quadros de Giacometti e observado, através das janelas, os sítios arqueológicos ao longo do Amazonas, fragmentos cerâmicos sobre superfícies de “terras de índio”. Se pudesse, pelo menos, ser seu confidente, conhecer da sabedoria que degustou nos livros, nos catálogos das exposições, nos Museus, entre os povos e culturas que me são distantes...
Como poderia ter esquecido de ti, Brecheret, visto ainda o fascínio e desejo que teu “índio e a sussuarana” despertou em minha ansiedade artística, somente correspondida e satisfeita ao encontrá-lo no pavilhão da Bienal em 1999. E, por não falar de tua produção da década de 50, a partir da pesquisa do imaginário da Cultura Marajoara, tão real e recorrente, agora parece que me arrisco a pensar que a estrutura poética aqui construída é, ao mesmo tempo, homenagem e afronta, na tentativa de superá-lo após meio século. Contigo aprendi sobre escultura mesmo antes de reconhecer Brancusi e Moore dentro de tua obra, nos exteriores de nossas superfícies. Admiração tão latente que o internalizei no esquecimento da razão, na sabedoria da mão, na percepção dos volumes e superfícies do espaço de minha fruição artística. Desculpe-me se diluí tua autoria; não o fiz por desrespeito ou plágio, mas por respeito ao conceito apropriado. E o mesmo faço com Moore, que me salta à lembrança materializado nesta última produção, presente na curva reversa que contrapõe densidade e leveza, sensualidade e o ser homem, escultor e como tu já foste, será preservado no esquecimento, objeto de reflexão futura, ainda neste ser doutor que se aproxima....
Nunca compreendi a razão do carnaval flutuar no calendário. Talvez ele nos informe, logo no início do ano, que não poderemos prever os acontecimentos que estarão por vir. Surpreendentemente, o carnaval não me marcou pelas festas, viagens e namoros de salão. Foram vários os que passei sambando nos corredores dos hospitais, tentando encontrar um ritmo que possibilitasse a continuidade da vida. Em todos, atravessei o samba e o bloco perdeu aquele folião que partia feliz com as lembranças de amigos, parentes, desejos e prazeres terrenos. Mas ela, a quem mais deveria dizer em vida que a amava, foi-se triste, num relampejo de tempo entre a porta do banheiro e o chão duro de seu quarto, que caprichoso não aparou sua queda. Não estava presente, nem sei detalhes do ocorrido, não quis saber, não quiseram comentar meu pai e seu primogênito. O telefone toca... madrugada de carnaval, desprevenido para a despedida e para o deslocamento, pego o táxi para a casa da capital. R$ 138,00, não se trata de ser avarento, mas é este número marcado em minha memória que reinicia aquela madrugada, recorrentemente sonhada em eternidade, na esperança de encontrá-la e dizer o que não foi dito.
Asérie entreteta..., é composta dos hemafródotos, células-corpo, copos-de-leite, nichos-teta e corpos-sem-fim. Entreteta..., é decorrência do desenvolvimento do projeto de uma coluna composta por inúmeros vasos modelados no torno que seriam empilhados indefinidamente em correspondência a coluna sem fim de Brancusi, que denominei corpos-sem-fim. A característica leitosa e colorida de suas surpefícies deve-se a exposição de Brennand no museu da UFRGS em 2009.
Mas o último vaso fechou-se teta... e gerou-se as Células-Corpo, a partir de cópias de gesso de mamilos femininos. Logo gerei os Copos-de-leite, unindo as células-corpo a forma dos inúmeros caputinos que tomei durante o desenvolvimento da série. Os nichos-teta, formados por células-corpo internas a nichos cerâmicos esmaltados abertos, sacralisa orgânicamente a ausência do corpo e se opõe ao enclausuramento observado nos acrílicos. As bases de todos os Hemafródotos é masculina e apresentam deformações em alusão a falos, enquanto que no topo de seus corpos superiores, sensualmente femininos, foram costuradas células-corpo, ou seja, cópias de mamilos femininos. Acabada a invasão, após me esgotar em forma e cor, revisitei "minhas mortes" com o mamílo ao tao e o preto aos olhos e surgiu a série "mamilos in memoriun", em formação, dúvidas e deleites.
É muito tênue a separação entre o artista e sua obra dentro do ofício expressivo. Durante a modelagem, seu corpo constantemente percebe-se impresso na superfície e observa as marcas de suas mãos, o gesto interrompido, sua ação e intenção poética. Constantemente, grava e apaga o registro de sua memória sobre a matéria e durante este processo amplia a intimidade de seu olhar, de sua percepção e em um determinado momento, não mais recua, não mais avalia a forma, se curva, tangência a superfície, tornase sua respiração e percorre os espaços do processo, cultuando-o.
Seu corpo ofício, medida de percepção e de construção, não aceita mais sua individualidade, tornase corpo interventor e deforma, grava sua existência no objeto modelado, seu contra corpo, corpo vazo, vazocorpo... assustado, temeroso, se afasta, observa os vestígios de seu corpo impregnados na superfície e reencontra seu desejo de forma, de materialidade.
Após o contato com as urnas funerárias das culturas pré-coloniais da Bacia Amazônica e haver impresso todo o meu corpo nas modelagens dos VAZOCORPOS em 2003, durante o mestrado, elaborei uma série de Urnas Contemporâneas na defesa de meu Doutorado em Artes na Unicamp em 2008, quando percebi o percurso de meu corpo nas artes e na cidade e elaborei poeticamente as Minhas Mortes. Construí minha produção cerâmica como um objeto artístico, inútil a função utilitária e ampla de percepção poética, escultórica. Mas também desejei minha escultura útil, urna contemporânea, invólucro de poesia e dentro deste confronto entre o utilitário e o artístico, entre a cerâmica e a escultura, entre o contemporâneo e o pré-colonial, construí meu Ser Cerâmico, percurso de um corpo poético.
Ser Cerâmico
sou um escultor que se apropria da materialidade da cerâmica
sou um ceramista que se apropria dos conceitos da escultura
Em todo o entorno da sala teremos uma faixa preta formada por cerca de 2000 mamilos pretos, vazados a partir de formas de gesso de mamilos humanos femininos.Ao centro da sala sobre um cubo preto será instalado um "mamilo in vítreo" composto de um tubo de vidro cheio de mamilos brancos. Este tubo tem o comprimento ie o posicionamento relativo ao vazio compreendido entre o umbigo e a boca do artista e será posicionada a partir da altura do umbigo do mesmo.
Autilização dobronze como material poético para desenvolvimento de meu pensamento escultórico, iniciou-se no final do ano de 2005, em decorrência da discussão entre processo e forma poética presente ao término de meu mestrado. Com este novo material, que apresenta uma reflexão da luz totalmente distinta da cerâmica e um processo de fundição externo ao meu ateliê, me desvinculo das seduções e deleites do processo. Sempre parto da representação de um corpo feminino criando a série Mulheres do Bronze; Lia, Sofia, Lis, Lisa....Esta nova forma escultórica, registro tênue do processo de síntese e abstração realizado ao longo da modelagem, busca ao longo do desenvolvimento da série, o desprendimento da representação que a gerou.
Vazocorpos, esculturas cerâmicas produzidas em escala humana a uma temperatura de 1220°C, durante o período de julho a outubro de 2003.Impregnaram sobre suas superfícies os vestígios de meu corpo impresso.Seu percurso poético partiu da observação do vazio físico dentro das cerâmicas e do existencial interno a subjetividade. Reconfigurou a superfície de fronteira entre os universos interno e externo, significou-a enquanto membrana que respira ausência e transpira desejo de corporiedade, de constituir-se em memória presente.